22 abril 2016

Módulo 8: O velho oeste

Em suas Teses sobre o conceito de história, o filósofo judeu-alemão Walter Benjamin poeticamente escreve: “há um quadro de Klee que se intitula Angelus Novus. Representa um anjo que parece querer afastar-se de algo que ele encara fixamente. Seus olhos estão escancarados, sua boca dilatada, suas asas abertas. Tal deve ser o aspecto do anjo da história. Seu rosto está dirigido para o passado. Onde nós vemos uma cadeia de acontecimentos, ele vê uma única catástrofe, que acumula incansavelmente ruína sobre ruína e as joga a seus pés. Ele gostaria de deter-se para despertar os mortos e reunir os vencidos. Mas uma tempestade sopra do paraíso e prende-se em suas asas com tanta força que ele não pode mais fechá-las. Essa tempestade o impele irresistivelmente para o futuro, ao qual ele dá as costas, enquanto o amontoado de ruínas cresce até o céu. Essa tempestade é o que chamamos progresso”.

O que quer que tenha inoculado no homem ocidental a sua sanha por progresso, dominação e avanço técnico – sendo este, aliado à ciência, o meio para o espraiamento do seu poderio – fez e faz com que a tradição ocidental nem olhe para trás nem freie este seu ímpeto, desdobrando-o em diversos projetos civilizatórios ao longo do tempo, sempre convenientemente esquecidos do quanto são igualmente barbarizantes.

Os exemplos históricos sobejam, e neste módulo incidimos nessa história um corte exemplar, abordando “a conquista do velho oeste”, processo que não se refere apenas à experiência norte-americana, mas que a enquadra numa moldura maior: a descoberta do Ocidente ao Ocidente, as Américas, é a moldura mais ampla em que cabe o impulso civilizatório que empurrou o leste da costa americana mais e mais a fundo em busca de sua expansão ocidental, criando com isso toda uma cultura e civilização, desde há algum tempo a mais poderosa das potências ocidentais. Os filmes de faroeste configuram um gênero especialmente fértil para reconhecermos como esse assombroso empreendimento foi realizado, bem como sob que termos e com que custos.

Aula - 29

A missão - Roland Joffé | Inglaterra, 1986
Direção:
Roland Joffé
Elenco: Robert De Niro, Jeremy Irons, Ray McAnally, Aidan Quinn

Ambientado no século XVIII numa região que abrange os territórios paraguaio, argentino e brasileiro, A missão conta a saga de Rodrigo Mendoza, violento mercador de escravos indígenas que, após matar o próprio irmão, padece de remorso a ponto de converter-se em missionário jesuíta. Usando dessa trajetória particular para abordar a guerra estabelecida por portugueses e espanhóis contra os jesuítas que catequisavam os índios em Sete Povos das Missões, o filme de Joffé ajuda a perceber como a colonização da América, marcante projeto de expansão da Europa rumo ao Oeste, resultou em grande dizimação, seja na forma imediata de vítimas que pereciam nos combates, seja na forma de uma força de aculturamento que aniquilava a história e a cultura locais. A partir dessa perspectiva, tanto o inimigo explícito que escraviza o nativo, como o “amigo” que o livra da escravidão ao preço da catequese, concorrem, a despeito das suas conflituosas divergências, para uma mesma convergência: o dilaceramento e desfiguração do elemento nominado bárbaro pela imposição do homem intitulado civilizado.


Palestra:



Aula - 30
Os brutos também amam - George Stevens | Eua, 1953
Direção: George Stevens
Elenco: Alan Ladd, Jean Arthur, Van Heflin, Brandon De Wilde

Shane, homem misterioso, paradigma do “cavaleiro solitário” (lonely rider), chega à casa dos Starretts (o pai, a mãe, o filho) justamente no momento em que estes são ameaçados por Ryker, o barão de gado local, que quer expulsar de seu latifúndio os colonos que insistem na agricultura familiar. O filme se estrutura em torno da luta entre essas duas figuras decisivas para a formação dos EUA: de um lado, o cattlebaron, homem violento que lutou para dizimar os índios e agora reivindica o direito de explorar a imensidão das terras que ajudou a conquistar com a criação de gado; de outro, o homesteader, o agricultor que, avesso ao uso da violência, quer apenas civilizar o Oeste, construindo casas, escolas, igrejas, novas cidades. Em Os brutos também amam, reconstrói-se um momento decisivo para a vitória do projeto civilizatório dos homesteaders, aquele em que um pistoleiro (o “bruto” do título brasileiro) que aprende a amar faz uso da violência pela última vez, justamente com o intuito de erradicá-la. O mito de um último ato de violência que acabaria de uma vez por todas com a necessidade do uso da violência continua, até hoje, legitimando a política externa norte-americana, imitada, às vezes internamente, em diversos outros países.



Palestra:



Aula - 31

O homem que matou o facínora - John Ford | Eua, 1962
Direção:
John Ford
Elenco: John Wayne, James Stewart, Lee Marvin, Vera Miles, Edmond O’Brien

Última obra-prima de John Ford, mestre absoluto do western e descobridor de John Wayne, que, desde No tempo das diligências (1939), é o seu ator-assinatura, O homem que matou o facínora não apenas reconstrói, como Shane, o mítico conflito entre os barões do gado, que defendiam a lei do mais forte, e os colonos, que defendiam a força de uma lei válida igualmente para todos. Neste filme de múltiplas camadas, a questão central é metalinguística: trata-se de investigar como os filmes de faroeste desempenham, nos EUA, a mesma função que os grandes poemas homéricos desempenhavam na Grécia Antiga. “When the legend becomes fact, publish the legend”, reza o mote do filme, sintetizando toda a obra de John Ford e colocando em xeque uma compreensão positivista da realidade histórica que crê ainda possível uma distinção clara e distinta entre fato e ficção.


Palestra:




Aula - 32

Era uma vez no oeste - Sergio Leone | Itália - Eua, 1968,
Direção:
Sergio Leone
Elenco: Claudia Cardinale, Charles Bronson, Henry Fonda, Jason Robards

Morton, um barão ferroviário, contrata Frank, renomado matador, para afugentar Brett McBain, colono irlandês dono de terras que muito se valorizariam com a chegada da ferrovia. Mas Frank acaba assassinando McBain e seus filhos, imputando a culpa pela matança a Cheyenne, procurado bandido local. Jill, uma ex-prostituta, chega à cidade e revela que se casara com McBain e era a nova proprietária das terras. Cheyenne e o enigmático Harmonica – que por motivos pessoalíssimos tem contas a acertar com Frank – solidarizam-se com ela e assumem a sua causa. A famosa declaração de Leone de que Era uma vez no oeste é “do início ao fim uma dança da morte”, não deve mascarar o quanto conjuga um plano existencial, vivido por homens para os quais a morte lhes é sempre agudamente próxima, com um plano sócio-político, em que se desenha em que termos se deu o processo de desenvolvimento dos Estados Unidos rumo ao Oeste. Um filme existencial e político, sobre vingança, morte e desenvolvimento civilizatório, em que “uma nova raça de homens” surge e inaugura um modo de vida no qual o dinheiro é elevado à mais temível das armas, a ponto de sobrepujar as pistolas de justiceiros de uma terra sem lei pelo tilintar de moedas douradas.



Palestra:




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21 abril 2016

Módulo 7: A guerra

Um dos mais conhecidos fragmentos de Heráclito, filósofo grego que viveu entre os séculos VI e V a.C., sentencia: “De todos a guerra é pai, de todos é rei; uns indica deuses, outros homens; de uns faz escravos, de outros, livres”.

20 abril 2016

Módulo 6: A Arte

“A arte tem um poder ilimitado de conversão espiritual. É o que os Gregos chamaram psicagogia. Só ela possui ao mesmo tempo a validade universal e a plenitude imediata e viva, que são as duas condições mas importantes da ação educativa. Pela união destas duas modalidades de ação espiritual, ela supera ao mesmo tempo a vida real e a reflexão filosófica. A vida possui a plenitude de sentido, mas as suas experiências carecem de valor universal. Sofrem demais a interferência dos sucessos acidentais para que a sua impressão possa alcançar sempre o grau máximo de profundidade. A filosofia e a reflexão atingem a universalidade e penetram na essência das coisas. Mas atuam somente naqueles cujos pensamentos chegam a adquirir a intensidade de uma vivência pessoal. Daqui resulta que a poesia tem vantagem sobre qualquer ensino intelectual e verdade racional, assim como sobre as meras experiências acidentais da vida do indivíduo. É mais filosófica que a vida real (se nos é lícito ampliar o sentido de uma conhecida frase de Aristóteles), mas é, ao mesmo tempo, pela concentração de sua realidade espiritual, mais vital que o conhecimento filosófico.”

Esse belo fragmento da Paidéia, de Werner Jaeger, realça não apenas a importância dos filmes contidos neste módulo, mas serve como justificativa para o projeto A história da filosofia em mais 40 filmes como um todo. A opção por aproximar filosofia e cinema nasceu sem dúvida da percepção de que o cinema empresta uma vida ao conhecimento filosófico que ele não teria enquanto permanecesse na torre de marfim de suas abstrações conceituais. Os quatro filmes deste módulo, entretanto, têm uma característica que os distingue: todos radicalizam a auto-reflexividade característica da filosofia e das grandes obras de arte. A estrada, Bodas de sangue, O homem das novidades e Cega obsessão são obras de arte que, calcadas em uma reflexão sobre o teatro/circo, a dança, o próprio cinema e as artes plásticas, respectivamente, abordam explicitamente o problema da definição e da função das artes num mundo dominado pela indústria cultural e por todas as múltiplas manifestações do mais crasso materialismo.


Aula -21

A estrada da vida - Federico Fellini | Itália, 1954
Direção: Federico Fellini
Elenco: Anthony Quinn, Giulietta Masina, Richard Basehart 



Zampanò é um homem rude que ganha a vida como artista mambembe. Seu único talento é romper correntes utilizando apenas a força dos músculos peitorais. Para realizar seus números nas praças de inúmeras cidades do interior da Itália, ele precisa de uma assistente capaz de tocar tambor e salpicar de suspense e humor as suas performances. De uma família miserável da qual já comprara a irmã mais velha, que morre em circunstâncias não esclarecidas, Zampanò compra Gelsomina. Ingênua e tocante como o Carlitos de Charles Chaplin, ela é forçada a compartilhar do leito de Zampanò, que a trata com a grosseria que lhe é peculiar. Apesar de tudo, unidos pela arte, os dois se amam e percorrem juntos a estrada da vida, até que a morte os separa. Neste verdadeiro road movie, cada encontro do casal ao longo de seu caminho precisa ser interpretado como um questionamento do lugar da arte (e do amor) em meio a um mundo dominado pelas formas mais crassas de materialismo.



Palestra:



Aula -22

Bodas de sangue - Carlos Saura | Espanha, 1981
Direção: Carlos Saura
Elenco: Antonio Gades, Cristina Hoyos, Juan Antonio Jiménez, Pilar Cárdenas, Carmen Villena

Em Bodas de Sangue, peça de García Lorca, a trama tem como cenários a choupana da noiva, que vive isolada com seu pai, e o casebre vizinho, onde vive o noivo e sua desolada mãe, que perdera filhos e marido em lutas por terra. No dia das bodas, a vinda de Leonardo, com quem a noiva havia tido um romance, reacende um passado afetivo ainda vivo. Em meio à cerimônia de casamento, Leonardo e a noiva fogem, dando motivo à perseguição de ambos por parte do noivo abandonado, tendo o deserto andaluz como paisagem. Todos esses elementos cênicos são deixados de lado por Saura, radicalizando uma sua decisão estética por si mesma já bastante arrojada: lançar mão, além da câmera, tão-somente da dança flamenca como único meio de expressão artística para a sua versão desta obra de Lorca, apostando no poder de expressividade da dança como elemento suficiente para “contar” e tornar legível todo o enredo da peça. Resulta daí um filme que, descontados os relatos e considerações dos bailarinos, representa a peça exclusivamente traduzida na coreografia concebida por Gades, realçando a autonomia e a força de expressão de corpos que dançam, exibindo não mais – porque “mais” seria desnecessário – que um ensaio filmado à luz do dia dentro de um estúdio livre de cenário e apenas com um nínimo de adereço.



Palestra:



Aula -23

O homem das novidades - Buster Keaton | Eua, 1928
Direção: Buster Keaton
Elenco: Buster Keaton, Marceline Day, Harry Gribbon, Harold Goodwin

Vivido pelo próprio Keaton, Luke Shannon é um humilde e desastrado fotógrafo de rua, já muito antiquado diante das inovadoras e avançadas câmeras que habitam a imprensa e os estúdios cinematográficos. Ironicamente, ele apaixona-se por Sally, uma bela moça que trabalha como secretária na Metro Goldwyn Mayer (MGM). Com o objetivo de conquistá-la, Shannon resolve procurar um emprego na companhia – em que o próprio Keaton havia recentemente entrado – e acaba por encontrar num outro câmera o seu maior rival, seja na luta pelo amor de Sally, seja na disputa pela excelência do manuseio da máquina. Parcialmente autobiográfica e absolutamente metalínguistica, esta deliciosa obra-prima do diretor é cinema sobre o cinema, desfilando o paradigma estético que Keaton defendia para a arte cinematográfica: crítico de seus excessos e da sua instrumentalização, mas convicto do seu valor, o autor apresenta-nos à idéia de que a arte é o meio que encontra fim em si mesmo e cuja finalidade não deve ultrapassar o seu próprio fazer. Tudo isso encarnado num personagem, um homem, que se confunde com o seu próprio ofício, retirando de nosso distraído esquecimento a carga presente na palavra que o define: the cameraman. Um filme do “homem-câmera”, uma ode de amor à fotografia e à fotografia em movimento – o cinema.



Palestra:



 Aula -24

Cega obsessão - Yasuzo Masumura | Japão, 1969
Direção: Yasuzo Masumura
Elenco: Eiji Funakoshi, Mako Midori, Noriko Sengoku

Um escultor cego está em busca de uma nova forma de arte, eminentemente tátil, uma arte que possa realmente nos tocar mesmo em meio a um mundo saturado de estímulos que tendem a embotar a sensibilidade humana. A paixão do escultor cego por uma modelo, que brota quando ele percorre com os dedos a escultura de seu corpo feita por outro artista, leva-o a raptá-la e a aprisioná-la em seu ateliê. A busca pela nova forma de arte, que ambos passam a compartilhar depois que a modelo leva o escultor a matar a própria mãe, logo se confunde com uma busca por sensações cada vez mais intensas, como as que são vividas apenas no auge do amor e da dor. O problema é que, como ambos logo aprenderão, a vida mais intensa se aproxima da morte. Cega obsessão é uma fina reflexão sobre a arte contemporânea e as origens do atual primado do corpo sem órgãos sobre qualquer sentido apreensível conceitualmente.




Palestra:

















Módulo 5: A técnica

“Há uma regra e há uma exceção. Cultura é regra; a arte, exceção. Todos falam a regra: cigarro, computador, camisetas, televisão, turismo, guerra. Ninguém fala a exceção. Ela não é dita, é escrita; é composta; é pintada; é filmada; ou vivida, e se torna a arte de viver. A regra quer a morte da exceção. Então, a regra para a Europa cultural é a morte da arte de viver”.

19 abril 2016

Módulo 4: O Conformista


 “Onde quer que deparemos com uma moral, encontramos uma avaliação e hierarquização dos impulsos e atos humanos. Tais avaliações e hierarquizações sempre constituem expressão das necessidades de uma comunidade, de um rebanho: aquilo que beneficia este em primeiro lugar – e em segundo e em terceiro – é igualmente o critério máximo quanto ao valor de cada indivíduo. Com a moral o indivíduo é levado a ser função do rebanho e a se conferir valor apenas enquanto função. Dado que as condições para a preservação de uma comunidade eram muito diferentes daquelas de uma outra comunidade, houve morais bastante diferentes; e, tendo em vista futuras remodelações essenciais dos rebanhos e comunidades, pode-se profetizar que ainda aparecerão morais muito divergentes. Moralidade é o instinto de rebanho no indivíduo”.

Módulo 3: O Estrangeiro

Em sua célebre análise de O homem de areia, conto fantástico de Hoffmann, Freud mobiliza um conceito fundamental para pensarmos a dialética entre civilização e barbárie, normal e patológico, eu e outro, o local e o estrangeiro: “da idéia de ‘familiar’, ‘pertencente à casa’ (heimlich), desenvolve-se a idéia de algo afastado dos olhos de estranhos, algo escondido, secreto. (...) heimlich é uma palavra cujo significado se desenvolve na direção da ambivalência, até que finalmente coincide com o seu oposto, unheimlich. O estranho (unheimlich) é, de um modo ou de outro, uma subespécie do familiar (heimlich).”