Módulo 7: A guerra

Um dos mais conhecidos fragmentos de Heráclito, filósofo grego que viveu entre os séculos VI e V a.C., sentencia: “De todos a guerra é pai, de todos é rei; uns indica deuses, outros homens; de uns faz escravos, de outros, livres”.

Frequentemente mencionada por Nietzsche, esta sentença de Heráclito demonstra a sua convicção na idéia de que tudo é luta: a vida e o cosmo são e estão em constante estado de guerra, pelo que e só porque encontram-se perenemente em movimento. A contradição é o motor de toda existência, e ao menos no cosmo atuam essas forças de contradição de modo a engendrá-lo harmonicamente a si mesmo, criando e recriando incessantemente a sua atualidade, a sua marcha e o tempo; tão radicalmente que mesmo o ser é afetado pela força e domínio desse devir, protagonizando eles mesmos, ser e devir, a mais constitutiva e inerredável das guerras. No homem, porém, a guerra encarna-se como expressão de desarmonia, tendo nela a sua origem e dela nutrindo-se.

O caráter aterrador dessa reflexão heraclítica reforça-se ao contemplarmos a história: nunca houve sociedade humana que não conhecesse a guerra, agora sim pensada sob a forma extrema e bélica do combate do homem contra o homem. Será possível um tempo livre de guerra? Ou, como pergunta a si mesmo o simbolicamente velho poeta de Asas do desejo, de Wim Wenders: “por que jamais foi possível escrever uma epopéia da paz?”

Possibilidade da técnica e espelho ampliado da violência e do poder inerentes ao humano, a guerra entre os homens será analisada neste módulo dando privilégio a conflitos travados na era contemporânea: constam desse rol a Primeira Guerra Mundial (A grande ilusão), a Segunda Grande Guerra (Roma, cidade aberta e Era uma vez em Tóquio) e finalmente a sua forma mais atual, que opõe terrorismo e terror de Estado (A batalha de Argel).

Aula -25

A grande - Jean Renoir | França, 1937
Direção: Jean Renoir
Elenco: Erich von Stroheim, Jean Gabin, Pierre Fresnay, Marcel Dalio

Primeira Guerra Mundial: três militares franceses sobrevivem à queda de um avião sobre o território inimigo. Detidos, são levados para uma prisão dirigida pelo comandante alemão Von Rauffenstein. Tratados dignamente, Rauffenstein e Boeldieu, capitão francês, chegam a estabelecer uma amistosa relação, marcada pelo mútuo respeito e solidariedade. Tudo muda quando são flagrados tentando escapar, o que leva o comandante a matar o seu “amigo”. Episódios como este mostram como se deixa de lado, num tempo de exceção como são os tempos de guerra, até mesmo a aristocrática honra militar que “aliava” inimigos. Eivado de uma singela ironia, este clássico de Renoir aponta o fracasso do projeto iluminista e do Ocidente eurocentricamente ilustrado, cujo sonho da “liberdade, igualdade e fraternidade” converte-se no pesadelo de guerras fratricidas. Cunhadamente humanista, A grande ilusão lembra-nos o quanto num confronto bélico todos são vítimas, fazendo-se um poderoso libelo contrário à guerra. Prova maior disso está no fato de Goebbels tê-lo declarado “inimigo cinematográfico número um”, ele que cria ter conseguido a destruição de todas as suas cópias. Justamente em 1945, um negativo completo foi descoberto em Munique.




Palestra:



Aula -26

Roma, cidade aberta - Roberto Rossellini | Itália, 1945
Direção: Roberto Rossellini
Elenco: Aldo Fabrizi, Anna Magnani, Maria Michi

Durante os anos de 1943 e 1944 a cidade de Roma, ocupada pelos nazistas, é declarada “cidade aberta”, numa tentativa de evitar bombardeios aéreos. Num dado ponto da cidade, comunistas e católicos unem-se para combater os alemães e as tropas nazi-fascistas, criando assim um núcleo de resistência de origem popular. Tendo como tema um fato histórico do seu tempo, esta obra-prima de Rossellini, co-escrita por Fellini, não só expõe um amargo episódio em meio à Segunda Guerra Mundial, como inova a linguagem cinematográfica ao tomar partido diante do ocorrido e eleger os eventos cotidianos e a gente simples da cidade como os personagens centrais do filme. Talvez por esse motivo, Godard tenha declarado a seu respeito que “todo grande documentário tende à ficção; toda grande ficção tende ao documentário; portanto, todo grande filme tende à Roma, cidade aberta”. Produzido e exibido no ano final da Segunda Grande Guerra, precursor do neorealismo italiano, Roma cidade aberta visita uma página da história ciente de que os fatos são feitos, assumindo sem constrangimento o ponto de vista do oprimido, acusando a iniquidade e a tirania do opressor.



Palestra: Não disponível


Aula -27 e 28


Era uma vez em Tóquio - Yasujiro Ozu| Japão, 1953
Direção: Yasujiro Ozu
Elenco: Chishu Ryu, Setsuko Hara, Chieko Higashiyama, Kyoko Kagawa, Eijiro Tono, Haruko Sugimura, Sô Yamamura

Um casal de idosos, que vive em uma cidade do interior do Japão e se comporta ainda segundo as mais antigas tradições japonesas, resolve viajar até Tóquio, para visitar os filhos, que colaboram ativamente na construção do novo Japão: moderno, dinâmico, ocidentalizado. Rapidamente, percebem que não são bem vindos. Os filhos não têm tempo para os pais nem interesse em recebê-los devidamente. A única que se interessa pelos dois é a viúva do filho que morreu lutando pelo Japão na Segunda Guerra Mundial, cuja dedicação comove-os. Um dia, finda a visita, a mãe adoece. Os filhos e a nora viúva vão visitá-la. Nessa visita, fica ainda mais claro o abismo entre as velhas tradições e as novas, entre pais e filhos, humanismo e pragmatismo. O espectador desavisado toma normalmente o partido dos pais, condenando a insensibilidade característica da vida moderna. É preciso lembrar, porém, que foram os pais e as tradições por eles abraçadas que motivaram a desastrosa participação do Japão na Segunda Guerra Mundial. Uma consideração do contexto histórico por trás desse drama familiar é fundamental para a apreciação de sua complexidade.


A batalha de argel - Gillo Pontecorvo | Itália, Argélia, 1965
Direção: Gillo Pontecorvo
Elenco: Brahim Haggiag, Jean Martin, Yacef Saadi, Ugo Paletti, Fusia El Kader

Valendo-se de uma linguagem que se apropria espetacularmente do realismo documental, o filme reconstrói os eventos decisivos da guerra pela independência da Argélia, marco do processo de libertação das colônias européias na África. Passado entre 1954 e 1957, o filme mostra detalhadamente o modo de agir e as razões das duas partes envolvidas no conflito, a Frente de Libertação Nacional e o Exército Francês. Enquanto que o Exército Francês valia-se largamente da tortura, do cerceamento das liberdades individuais e do assassinato, a FLN utilizava técnicas não-convencionais de combate, que iam das mais variadas táticas de guerrilha ao terrorismo. A batalha de Argel é um dos estudos mais bem sucedidos sobre a gênese do terrorismo como resposta ao terrorismo de Estado, propondo questões que vão muito além do tempo e do lugar em que foi realizado.




Palestra:




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