Módulo 8: O velho oeste

Em suas Teses sobre o conceito de história, o filósofo judeu-alemão Walter Benjamin poeticamente escreve: “há um quadro de Klee que se intitula Angelus Novus. Representa um anjo que parece querer afastar-se de algo que ele encara fixamente. Seus olhos estão escancarados, sua boca dilatada, suas asas abertas. Tal deve ser o aspecto do anjo da história. Seu rosto está dirigido para o passado. Onde nós vemos uma cadeia de acontecimentos, ele vê uma única catástrofe, que acumula incansavelmente ruína sobre ruína e as joga a seus pés. Ele gostaria de deter-se para despertar os mortos e reunir os vencidos. Mas uma tempestade sopra do paraíso e prende-se em suas asas com tanta força que ele não pode mais fechá-las. Essa tempestade o impele irresistivelmente para o futuro, ao qual ele dá as costas, enquanto o amontoado de ruínas cresce até o céu. Essa tempestade é o que chamamos progresso”.

O que quer que tenha inoculado no homem ocidental a sua sanha por progresso, dominação e avanço técnico – sendo este, aliado à ciência, o meio para o espraiamento do seu poderio – fez e faz com que a tradição ocidental nem olhe para trás nem freie este seu ímpeto, desdobrando-o em diversos projetos civilizatórios ao longo do tempo, sempre convenientemente esquecidos do quanto são igualmente barbarizantes.

Os exemplos históricos sobejam, e neste módulo incidimos nessa história um corte exemplar, abordando “a conquista do velho oeste”, processo que não se refere apenas à experiência norte-americana, mas que a enquadra numa moldura maior: a descoberta do Ocidente ao Ocidente, as Américas, é a moldura mais ampla em que cabe o impulso civilizatório que empurrou o leste da costa americana mais e mais a fundo em busca de sua expansão ocidental, criando com isso toda uma cultura e civilização, desde há algum tempo a mais poderosa das potências ocidentais. Os filmes de faroeste configuram um gênero especialmente fértil para reconhecermos como esse assombroso empreendimento foi realizado, bem como sob que termos e com que custos.

Aula - 29

A missão - Roland Joffé | Inglaterra, 1986
Direção:
Roland Joffé
Elenco: Robert De Niro, Jeremy Irons, Ray McAnally, Aidan Quinn

Ambientado no século XVIII numa região que abrange os territórios paraguaio, argentino e brasileiro, A missão conta a saga de Rodrigo Mendoza, violento mercador de escravos indígenas que, após matar o próprio irmão, padece de remorso a ponto de converter-se em missionário jesuíta. Usando dessa trajetória particular para abordar a guerra estabelecida por portugueses e espanhóis contra os jesuítas que catequisavam os índios em Sete Povos das Missões, o filme de Joffé ajuda a perceber como a colonização da América, marcante projeto de expansão da Europa rumo ao Oeste, resultou em grande dizimação, seja na forma imediata de vítimas que pereciam nos combates, seja na forma de uma força de aculturamento que aniquilava a história e a cultura locais. A partir dessa perspectiva, tanto o inimigo explícito que escraviza o nativo, como o “amigo” que o livra da escravidão ao preço da catequese, concorrem, a despeito das suas conflituosas divergências, para uma mesma convergência: o dilaceramento e desfiguração do elemento nominado bárbaro pela imposição do homem intitulado civilizado.


Palestra:



Aula - 30
Os brutos também amam - George Stevens | Eua, 1953
Direção: George Stevens
Elenco: Alan Ladd, Jean Arthur, Van Heflin, Brandon De Wilde

Shane, homem misterioso, paradigma do “cavaleiro solitário” (lonely rider), chega à casa dos Starretts (o pai, a mãe, o filho) justamente no momento em que estes são ameaçados por Ryker, o barão de gado local, que quer expulsar de seu latifúndio os colonos que insistem na agricultura familiar. O filme se estrutura em torno da luta entre essas duas figuras decisivas para a formação dos EUA: de um lado, o cattlebaron, homem violento que lutou para dizimar os índios e agora reivindica o direito de explorar a imensidão das terras que ajudou a conquistar com a criação de gado; de outro, o homesteader, o agricultor que, avesso ao uso da violência, quer apenas civilizar o Oeste, construindo casas, escolas, igrejas, novas cidades. Em Os brutos também amam, reconstrói-se um momento decisivo para a vitória do projeto civilizatório dos homesteaders, aquele em que um pistoleiro (o “bruto” do título brasileiro) que aprende a amar faz uso da violência pela última vez, justamente com o intuito de erradicá-la. O mito de um último ato de violência que acabaria de uma vez por todas com a necessidade do uso da violência continua, até hoje, legitimando a política externa norte-americana, imitada, às vezes internamente, em diversos outros países.



Palestra:



Aula - 31

O homem que matou o facínora - John Ford | Eua, 1962
Direção:
John Ford
Elenco: John Wayne, James Stewart, Lee Marvin, Vera Miles, Edmond O’Brien

Última obra-prima de John Ford, mestre absoluto do western e descobridor de John Wayne, que, desde No tempo das diligências (1939), é o seu ator-assinatura, O homem que matou o facínora não apenas reconstrói, como Shane, o mítico conflito entre os barões do gado, que defendiam a lei do mais forte, e os colonos, que defendiam a força de uma lei válida igualmente para todos. Neste filme de múltiplas camadas, a questão central é metalinguística: trata-se de investigar como os filmes de faroeste desempenham, nos EUA, a mesma função que os grandes poemas homéricos desempenhavam na Grécia Antiga. “When the legend becomes fact, publish the legend”, reza o mote do filme, sintetizando toda a obra de John Ford e colocando em xeque uma compreensão positivista da realidade histórica que crê ainda possível uma distinção clara e distinta entre fato e ficção.


Palestra:




Aula - 32

Era uma vez no oeste - Sergio Leone | Itália - Eua, 1968,
Direção:
Sergio Leone
Elenco: Claudia Cardinale, Charles Bronson, Henry Fonda, Jason Robards

Morton, um barão ferroviário, contrata Frank, renomado matador, para afugentar Brett McBain, colono irlandês dono de terras que muito se valorizariam com a chegada da ferrovia. Mas Frank acaba assassinando McBain e seus filhos, imputando a culpa pela matança a Cheyenne, procurado bandido local. Jill, uma ex-prostituta, chega à cidade e revela que se casara com McBain e era a nova proprietária das terras. Cheyenne e o enigmático Harmonica – que por motivos pessoalíssimos tem contas a acertar com Frank – solidarizam-se com ela e assumem a sua causa. A famosa declaração de Leone de que Era uma vez no oeste é “do início ao fim uma dança da morte”, não deve mascarar o quanto conjuga um plano existencial, vivido por homens para os quais a morte lhes é sempre agudamente próxima, com um plano sócio-político, em que se desenha em que termos se deu o processo de desenvolvimento dos Estados Unidos rumo ao Oeste. Um filme existencial e político, sobre vingança, morte e desenvolvimento civilizatório, em que “uma nova raça de homens” surge e inaugura um modo de vida no qual o dinheiro é elevado à mais temível das armas, a ponto de sobrepujar as pistolas de justiceiros de uma terra sem lei pelo tilintar de moedas douradas.



Palestra:




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