Módulo 4: O Conformista


 “Onde quer que deparemos com uma moral, encontramos uma avaliação e hierarquização dos impulsos e atos humanos. Tais avaliações e hierarquizações sempre constituem expressão das necessidades de uma comunidade, de um rebanho: aquilo que beneficia este em primeiro lugar – e em segundo e em terceiro – é igualmente o critério máximo quanto ao valor de cada indivíduo. Com a moral o indivíduo é levado a ser função do rebanho e a se conferir valor apenas enquanto função. Dado que as condições para a preservação de uma comunidade eram muito diferentes daquelas de uma outra comunidade, houve morais bastante diferentes; e, tendo em vista futuras remodelações essenciais dos rebanhos e comunidades, pode-se profetizar que ainda aparecerão morais muito divergentes. Moralidade é o instinto de rebanho no indivíduo”.


Ciente do devir histórico que necessariamente acomete os signos da moral e da cultura, Nietzsche delega especial atenção a esse elemento que, a despeito dessa diversificação no tempo, tende a permanecer: a repetição insistente de um impulso, o instinto de rebanho, que visa a situar-se em conformidade a uma ordem qualquer que lhe pareça superior. Um tal conformismo guarda um caráter mimético, traduzido na forma de um desejo de querer ser igual, gerando o prazer em ver-se arrebanhado segundo a ordem de um pastor que tange suas submissas ovelhas, elas mesmas ciosas e carentes de quem lhes oriente. Veremos esse instinto tomar o corpo da tela através das conformadas figuras que os filmes deste módulo nos apresentam, desde um plano mais íntimo, em que o mais mínimo cotidiano de um homem comum é afetado drasticamente quando ele perde a sua função social (A última gargalhada), até o mais amplo dos planos, aquele que remete à nossa conformidade a uma tradição ancestral que sempre e repetidamente nos contém e detém (O desprezo), passando igualmente por figuras extremas, em que este impulso é elevado à patologia coletiva, seja no fascismo de uma sociedade italiana sob a égide de Mussolini (O conformista), seja no nazismo que se apodera da sociedade alemã sob a chancela de Hitler (Mephisto)

 Aula - 13
A última gargalhada - Friedrich Murnau | Alemanha, 1924.
Direção: Friedrich Murnau
Elenco: Emil Jannings, Georg John, Hans Unterkircher, Maly Delschaft

O porteiro do Atlantis, um hotel cinco estrelas de Berlim, orgulha-se de seu trabalho e da imponência de seu uniforme, que lhe garante o respeito dos vizinhos e a sensação de pertencimento à elite de seu país. Em uma noite tempestuosa, o porteiro fraqueja ao carregar um pesado baú. O gerente do hotel presencia a cena e decide substituí- lo por um empregado mais jovem. Para não mandá-lo embora depois de tantos anos de serviços prestados ao Atlantis, oferece-lhe “gentilmente” o cargo de faxineiro do banheiro masculino. Rebaixado em sua posição social e sem o uniforme que confundia com sua própria identidade, aquele homem outrora imponente se torna subitamente um trapo (em alemão, Lumpen, termo importante para o pensamento de Marx), ou, segundo o título original do filme, se torna “o último homem” de que falava Nietzsche. Nesta pequena obra-prima, Murnau se propõe a pensar, junto com Marx e Nietzsche, o que acontece quando os seres humanos são reduzidos a uma mera função social, a simples peças de uma engrenagem que lhes nega qualquer possibilidade de resistência.






Palestra:




 Aula - 14

O conformista - Bernardo Bertolucci | Itália, 1970.
Direção: Bernardo Bertolucci
Elenco: Jean-Louis Trintignant, Stefania Sandrelli, Dominique Sanda

Roma, 1938. Marcello aceita executar um trabalho para Mussollini ao mesmo tempo que flerta com uma bela jovem, Giulia. Correspondido, a satisfação amorosa alimenta seu conformismo e sua ânsia por “normalidade”, cumprindo o desejo de sentir-se integrado a um Estado autoritário e ideologicamente narcotizante, pelo que a sua relação com o regime parece-lhe ordinária, como se desempenhasse ele um papel qualquer, “normal” como tantos outros em nossa vida cotidiana. Entrelaçados o aparente sucesso amoroso e o conformismo perante a quem serve, Marcello, ferramenta anônima do Estado, não se apercebe das circunstâncias sexuais que permitem esse entrelace, progredindo mais e mais nessa estranha união: aproveitará a lua de mel em Paris para cumprir mais uma tarefa determinada por seus superiores, a de vigiar e executar um ex-professor seu que abandonara a Itália tão logo os fascistas haviam ascendido ao poder. Adaptado da obra homônima de Alberto Moravia, Bertolucci exibe uma incômoda situação de alienação política, apresentando o conformismo crescente de Marcello em relação proporcional ao “esquecimento” que uma pseudo-satisfação afetiva lhe produz, delineando um perfil psicológico lacunar e frágil, cujo principal problema consiste justamente em não desconfiar de si mesmo e não reconhecer a própria fragilidade.







Palestra:




   Aula - 15
 
O desprezo - Jean-Luc Godard | França, Itália, 1963.
Direção: Jean-Luc Godard
Elenco: Brigitte Bardot, Michel Piccoli, Jack Palance, Fritz Lang, Giorgia Moll

O roteirista parisiense Paul Javal, casado com Camille, uma mulher deslumbrante, é convidado pelo megalomaníaco produtor norte-americano Jeremy Prokosch para reescrever o roteiro de um filme, financiado por ele e dirigido por ninguém menos que Fritz Lang, baseado na Odisséia de Homero. A hierarquia que se estabelece entre o chefe (o produtor) e o empregado (o roteirista) faz com que Paul permita que Jeremy tome certas liberdades com sua esposa. A partir do momento em que Camille se dá conta do conformismo do marido, ela começa a desprezá-lo. Apropriando-se do romance homônimo de Alberto Moravia, Godard constrói uma obra radicalmente metalinguística, que, além de jogar com a beleza e a celebridade de Brigitte Bardot, entrelaça a crise de um casamento moderno com diversas interpretações contraditórias da odisséia de Ulisses e com uma visão polêmica da relação entre nós e os gregos. Finalmente, O desprezo questiona de que modo a verdadeira vocação do cinema como arte e pensamento pode resistir em um tempo de predomínio quase absoluto da indústria cultural.





Palestra:




Aula - 16

Mephisto - István Szabó | Hungria, 1981.
Direção: István Szabó
Elenco: Klaus Maria Brandauer, Krystyna Janda, Ildikó Bánsági

Alemanha, anos 30. Hendrik Höfgen, um ambicioso ator de teatro, colabora com o nazismo a fim de ascender na carreira. Com a tomada do poder por parte do nacional-socialismo alemão, Höfgen adere voluntariamente à sua ideologia, passando a representar peças de propaganda do Estado, pelo que se converte no mais aclamado e popular ator do país, ao mesmo tempo que se submete de forma absoluta à uniformização política e social em conformidade com as normas ditadas pelos nazistas. Nesta adaptação do romance de Klaus Mann, Szabó transpõe para a tela essa atualização contemporâena da relação entre Mefistófeles e Fausto, dissecando de forma perturbadora as consequências do totalitarismo sobre aqueles que optam deliberadamente pela anuência e submissão a uma instância superior e, tal como na obra de Goethe, expõe o efeito devastador que assola a vida de quem vende a alma ao diabo.

 



Palestra:

















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