Módulo 2: A (má) educação


O romance de formação (Bildungsroman)”, escreveu Franco Moretti em O caminho do mundo, uma das mais importantes obras sobre o tema, “encena o conflito entre o ideal de autodeterminação e as igualmente imperiosas exigências da sociedade. É necessário que, como um indivíduo livre, e não por medo, o cidadão perceba as normas sociais como suas. Cada qual precisa internalizá-las e fundir, em uma nova unidade, as obrigações externas e os impulsos internos de modo a que ambos não sejam mais distinguíveis.”

No âmbito de uma concepção não-dialética, bem educado é aquele que se sente perfeitamente em casa em seu mundo, obedecendo às regras que o estruturam como se elas fossem naturais – e não históricas, circunstanciais, mutáveis. Mal educado, em contrapartida, é aquele que não se encaixa nos modelos pré-estabelecidos, apresentando comportamentos e pensamentos destoantes daqueles que são comumente aceitos em seu meio. Os filmes que integram este módulo problematizam a distinção tradicional entre a boa e a má educação chamando a atenção para a dialética entre conformismo e inconformismo. O que significa, em última instância, a (boa) educação? Uma pura e simples adequação às demandas do meio em que casualmente nos vimos lançados? Ou uma resistência a essas demandas que denuncia a sua estranheza e, mesmo, muitas vezes, a sua iniquidade?


Tomadas em conjunto neste módulo, essas questões servirão também de fio condutor aos dois módulos subsequentes, o primeiro dedicado a analisar formas de comportamento desviantes (O estrangeiro), o segundo formas de comportamento submissas aos padrões socialmente aceitos (O conformista)


Aula -5

Um sopro no coração - Louis Malle | França, Itália, Alemanha, 1971
Direção: Louis Malle
Elenco: Lea Massari, Benoît Ferreux, Daniel Gélin, Michael Lonsdale, Ave Ninchi


Dijon, 1954. Laurent Chevalier é um jovem de quinze anos, filho de uma famíla da alta burguesia, viciado nos discos de Charlie Parker e nas obras de Albert Camus, ícones da revolta de seu tempo. Seus irmãos mais velhos, Thomas e Marc, menos intelectualizados e mais gaiatos do que ele, propõem-se a iniciá-lo nos prazeres do álcool, das drogas e do sexo. Laurent deixa-se iniciar com prazer, até que se descobre-se que padece de um sopro no coração. Ele é então enviado para uma clínica de tratamento fora da cidade, sendo acompanhado unicamente por Clara, sua mãe, italiana belíssima e cheia de vida. Laurent não entende como ela pode ter se casado com o seu pai, homem extremamente sério e conservador. Na clínica, consumar-se-á o seu romance-de-formação (Bildungsroman), que problematiza justamente a necessidade de uma solução de compromisso entre as exigências normalizadoras da sociedade e os anseios libertários do indivíduo.



Palestra:



 Aula -6

O casamento de Maria Braun - Rainer Werner Fassbinder | Alemanha, 1979.
Direção: Rainer Werner Fassbinder
Elenco: Hanna Schygulla, Klaus Löwitsch, Ivan Desny, Gottfried John, Gisela Uhlen
 

Durante a Segunda Grande Guerra, Maria casa-se com Hermann, um soldado alemão. Depois de uma brevíssima lua de mel, Hermann tem de voltar à frente russa, enquanto Maria dá início à sua vigília diária na estação de trens. Surpreendida pela notícia do desaparecimento do seu marido, Maria resiste a aceitar a funesta notícia: veste-se sensualmente e vai trabalhar num bar em que conhece Bill, um soldado americano negro, com quem acaba iniciando uma relação. Contudo, confirmando a resistência ou a intuição de Maria, Hermann reaparece e desentende-se com Bill, que, após sofrer uma pancada, morre. Hermann assume a responsabilidade pela morte de Bill e é preso. Com Bill morto e Hermann detido, Maria encontra saída ao assumir o cargo de secretária de uma fábrica cujo proprietário é Karl Oswald. O filme de Fassbinder exibe a ascensão de Maria Braun, prostituta durante a Segunda Guerra Mundial e influente mulher de negócios na sucateada Alemanha do Pós-Guerra, fazendo deste enredo, além de uma contundente metáfora da história (relativamente) recente do país e da sociedade alemã que emerge após a traumática experiência da guerra, o mote para questionar até que ponto o verdadeiro casamento de Maria não é aquele cuja aliança representa a custosa adequação entre a sua motivação íntima e as exigências externas impostas pela sociedade que lhe é circunstante.



Palestra:



 Aula -7

Veludo azul | David Lynch | Eua, 1986.
Direção: David Lynch
Elenco: Kyle MacLachlan, Isabella Rossellini, Dennis Hoper, Laura Dern, Dean Stockwell
 

O colapso de seu pai obriga Jeffrey Beaumont a abandonar a universidade e a voltar para Lumberton, sua cidade natal, com a responsabilidade de assumir o lugar paterno no comando da loja da família. Em meio à aparente tranquilidade daquela cidadezinha do interior dos Estados Unidos, voltando do hospital em que fora visitar o pai moribundo, Jeffrey subitamente depara com uma orelha humana decepada. Ela é a chave que abrirá a porta para um mundo estranho e previamente desconhecido, onde os policiais são corruptos, as virgens lascivas, as mulheres masoquistas e os homens criminosos sádicos e imbecis. Em Veludo azul, a passagem da infância para a vida adulta é pensada freudianamente como a descoberta de que o mais estranho e o mais familiar (das Un-heimliche) são menos dissociáveis do que uma certa moral social pretende nos fazer crer.
 



Palestra:



Aula -8

Uma mulher sob influência - John Cassavetes | Eua, 1974.
Direção: John Cassavetes
Elenco: Gena Rowlands, Peter Falk, Fred Draper, Lady Rowlands, Katherine Cassavetes

Nick e Mabel formam um típico casal da (baixa) classe média americana, com dois filhos e uma usual divisão do trabalho familiar: enquanto ele trabalha num estaleiro, ela cuida da casa e dos filhos. Num dado momento, Mabel começa a apresentar sintomas de descontrole e depressão que, entre delírios mais ou menos breves e uma série de inaptidões, indicam que não se encontra mais em condições de desempenhar o papel que a família e a sociedade dela esperam. Enquanto Mabel revela sintomaticamente a sua indisposição diante desse modelo, Nick sobrecarrega-se em preservá-lo, arcando com as funções do seu trabalho, da educação das crianças e da própria recuperação da mulher. De forma singela e brilhante, o filme de Cassavetes mostra uma família depauperada emocional e psiquicamente, desequilibrando-se pouco a pouco a despeito da sua “normalidade” ou justamente em nome dela: padrões e ritos sociais vão sendo mostrados como forças perturbadoras, realçando o enorme poder de produção de loucura que se inscreve por detrás do nosso aparentemente brando way of life.




Palestra:




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