Môdulo 1: O perspectivismo

“Contra o positivismo que permanece parado junto ao fenômeno afirmando: ‘Só há fatos’, eu diria: não, justamente fatos não existem, apenas interpretações. Não estamos em condições de fixar nenhum fato ‘em si’: talvez seja mesmo um disparate querer algo assim. Vós direis então: ‘Tudo é subjetivo.’ Mas isto também já é interpretação: o ‘sujeito’ não é nada dado, mas acrescentado através da imaginação, inserido aí por detrás. – Ainda é necessário afinal colocar o intérprete por detrás da interpretação? Um tal ato já é poetização, hipótese. Uma vez que a palavra ‘conhecimento’ possui antes de mais nada um sentido, o mundo é passível de ser conhecido: mas ele pode receber outras significações. Ele não possui nenhum sentido por detrás de si mesmo, mas inumeráveis sentidos: ‘Perspectivismo’.”

Esse célebre fragmento póstumo de Nietzsche põe em xeque tanto a crença em uma realidade objetiva existente em si mesma, pressuposto fundamental da metafísica realista (base das Filosofias Antiga e Medieval), quanto a crença em uma subjetividade transcendental comum a todos os homens que conformaria a realidade à sua imagem e semelhança, pressuposto fundamental da metafísica idealista (base da Filosofia Moderna) . Seja porque problematizam a existência de uma realidade/identidade dada em si mesma para além das múltiplas possibilidades de interpretá-la (Cidadão Kane); seja porque apresentam distintos modos de compreender e lidar com a morte (Gritos e sussurros) ou com a fragilidade dos projetos humanos (O crepúsculo dos deuses); seja, finalmente, porque relativizam qualquer delimitação rígida entre o normal e o patológico (Psicose), os quatro filmes que integram este módulo permitem compreender o alcance ético, estético e ontológico do conceito de perspectivismo, central para todos os desdobramentos da Filosofia Contemporânea.


Aula - 1

Cidadão Kane - Orson Welles | Eua, 1941
Direção: Orson Welles
Elenco: Orson Welles, Joseph Cotten, Dorothy Comingore, Agnes Moorehead.

Após a morte de Charles Forster Kane, personagem inspirado no magnata da imprensa norte-americana William Randolph Hearst, um repórter é encarregado de reconstituir a sua trajetória com o intuito de revelar a seus leitores a verdadeira identidade daquele homem tão célebre e poderoso. Acreditando que a última palavra proferida por Kane em seu leito de morte, “rosebud”, seria a chave para a compreensão do sentido de sua vida, o repórter entrevista as pessoas que conviveram com ele: colegas de trabalho, empregados e ex-mulheres. O espectador é confrontado com uma série de perspectivas diferentes e não raro contraditórias acerca da identidade de Kane. Será possível reconstituir a verdadeira imagem de alguém? Ou não seríamos mais do que a soma das nossas insuperáveis contradições?
 



Palestra:



Aula - 2

Gritos e sussurros - Ingmar Bergman | Suécia, 1972
Direção: Ingmar Bergman
Elenco: Liv Ullman, Ingrid Thulin, Harriet Andersson, Kari Sylvan.

Transcorre o ano de 1900. Em cena três irmãs, Karin, Maria e Agnes, encontrando-se esta moribunda e literalmente no leito de morte. Além delas uma quarta mulher, a criada Anna, que se reveza com as irmãs de Agnes na tarefa de zelar por ela na iminência da morte. Entre os gritos de Agnes, os sussurros de Karin, Maria e Anna. O enredo deste filme de Bergman talvez não ultrapasse essa descrição, mas mostra de forma precisa e aguda como três mulheres revelam quem são ao cuidarem de uma quarta à beira da morte. A partir desse cuidado evidencia-se não apenas a relação afetiva que guardam para com a enferma, mas também a perspectiva que cada uma delas estabelece com a (própria) mortalidade: diante do fato bruto e unilateral que Agnes simbolicamente representa, as demais personagens revelam-se subjetivamente, desenhando uma pluralidade de reações, atitudes e temperamentos diante daquilo que nos (a)parece tão univocamente incontornável.




Palestra:



Aula - 3

Crepúsculo dos deuses - Billy Wilder | Eua, 1950
Direção: Billy Wilder
Elenco: Gloria Swanson, William Holden, Erich von Stroheim, Nancy Olson.

Este clássico de Wilder é provavelmente o mais ácido filme de Hollywood sobre Hollywood: uma estrela decadente do cinema mudo, Norma Desmond, tenta voltar à cena com a ajuda de um roteirista fracassado, Joe Gillis, que acaba se tornando seu gigolô, numa trama urdida por uma perniciosa união de interesses e exploração mútua. A genial cena de abertura, dando conta de um crime, revela de imediato que essa trama será contada por um corpo morto que flutua de bruços numa piscina de Hollywood, dando ao cadáver de Gillis o privilégio da narrativa, que desta forma é construída em perspectiva retroativa e revisionista, resultando num filme totalmente composto por flashbacks que revelam o quanto toda e qualquer história é sempre e tão-somente uma versão acerca dos fatos supostamente objetivos. Além do narrador morto, Wilder explora a questão do perspectivismo também pelo viés de Desmond, fazendo-se valer de seus delírios beirando a insanidade para exibir uma visão tão exageradamente desvinculada da “realidade” que nos faz lembrar insistentemente o quanto essa mesma realidade sempre nos escapa porque afogada, como o cadáver de Gillis, nas perspectivas ou nos ângulos de câmera com que divisamos (decidimos divisar?) o “real”.
 



Palestra:



 Aula - 4

Psicose - Alfred Hitchcock | Eua, 1960
Direção: Alfred Hitchcock
Elenco: Anthony Perkins, Janet Leigh, Vera Miles, John Gavin, Martin Balsam.

Marion Crane, secretária de uma imobiliária em uma grande cidade norte-americana, precisa utilizar as suas horas de almoço para fazer amor com o namorado. Ela quer se casar, mas ele alega que tem dívidas demais. Para regularizar uma situação que lhe parece pouco respeitável, Marion rouba 40 mil dólares de seu patrão e parte em busca de seu amado, que mora em uma cidade distante. No caminho, acaba tendo que dormir em um decadente hotel de beira de estrada, administrado por Norman Bates, jovem de comportamento estranho, dominado por uma mãe tirânica. O encontro entre Marion e Norman culmina em uma das cenas mais famosas da história do cinema, a cena do assassinato sob o chuveiro, e o resto do filme mostra a irmã e o namorado de Marion tentando descobrir o seu paradeiro. Psicose, no entanto, não é um filme policial, mas um estudo acerca do que Freud chamou de “mal-estar da civilização” e das diferentes maneiras de lidar com ele.

Nenhum comentário:

Postar um comentário

Blogroll